Desconstruindo Romário

Desconstruindo Romário: o rei festeiro que mandava e desmandava no vestiário e fazia gol atrás de gol sem se esforçar

27/04/2020

“Mago das massas, mais querido
Odiado dos zagueiros
Romário é rei, Romário é o máximo
Ele é o cão”

A música acima nasceu em 1994, ano do tetracampeonato mundial. Romário deitou e rolou na Copa dos EUA-1994, foi vice-artilheiro e acabou eleito o melhor do mundo pela Fifa.

A canção da Banda Bel citada acima, na voz do hoje ator Ronnie Marruda, escancara muito do que foi o Baixinho: amado pela torcida, odiado pelos rivais. Rei não apenas em campo, mandava e desmandava também no vestiário. “O cão”.

Quem conviveu com Romário lembra muitas histórias de bastidores, muitos jogos que ele dizia que ia decidir e decidia, lances de genialidade e uma facilidade incomparável de fazer gols, mesmo com uma certa, digamos, “preguiça” de treinar e “animação” com a noite. “Quando nasci, papai do céu apontou para mim e disse: Esse é o cara”, diria o Baixinho.

Abaixo, a “desconstrução” de Romário, o Baixinho que fez gol de tudo que é jeito e sempre será reverenciado como um dos gigantes do futebol:

 O Rei do vestiário 

“São coisas que não existem mais no futebol. Tivemos um jogo contra o Grêmio e estávamos no aeroporto. Quando entramos no avião, passamos por trás. Todo mundo procurando. ‘Cadê o Baixinho?’ Todo mundo ficou procurando achando que ele estava atrasado porque sempre foi o último a chegar. Nunca foi de horário. Quando foi ver ele estava há um tempão sentado na primeira classe e tomando uma champanhe (risos). Ele gostava de andar na janelinha com a Coca-Cola dele lá, tranquilão. Aquilo ficou marcado porque a comissão técnica e todos os jogadores na classe econômica e só ele na primeira classe (risos). Ele tinha muita moral. Sempre que tinha uma primeira classe no avião ele ia lá.”

João Carlos, zagueiro que atuou com Romário no Vasco

“O meu melhor momento no Vasco foi com ele no ataque e o Renato Gaúcho de treinador, pois eu me sentia muito à vontade. Naquela época, se o Romário fizesse mais de um gol por jogo, o elenco inteiro ganhava o ‘bicho’ da vitória dobrado. Meu salário era curto nessa época. Então, o que eu metia de bola para ele não estava no gibi (risos)! Eu já falava para os caras: ‘É bola no ‘Baixinho’ para dobrar esse ‘bicho’ aí’. Muitos jogos que ele fez isso e faturamos dobrado.”

Morais, meia que atuou com Romário no Vasco

“Logo no primeiro dia que cheguei ao vestiário a galera me mostrou qual era o meu lugar para sentar. Todo mundo estava dando risada, mas eu não entendi. Um cara passou por mim e disse: ‘Você está querendo ir embora antes do primeiro dia?’ Foi aí que eu percebi que estava no lugar do Romário (risos). Era o armário número 11!. Nisso, o Baixinho chegou no vestiário já dando risada: ‘Tu acabou de chegar e já quer que eu te mande de volta para o lugar de onde você veio?’ A galera toda caiu na risada e eu fiquei super envergonhado. Pedi desculpas e saí de lá rapidinho (risos).”

Anselmo, que jogou com Romário no Vasco

 Treino? 

“Romário é uma lenda. Nós jogávamos domingo, às 16h, e ele chegava para o almoço às 12h já cansado (risos). Só que ia para no jogo e fazia dois gols. O cara ainda foi artilheiro do Brasileiro sem jogar quase fora de casa. Era raridade ele sair de São Januário. No máximo, ele fazia a ponte aérea para São Paulo.”

Morais, meia que atuou com Romário no Vasco

[Eles viraram parceiro de quarto quando o “Baixinho” cursava edudação física, em 1988]. O Paulo Angioni [então gerente de futebol] me pediu para ajudar a fazer os trabalhos da faculdade do Romário. No começo eu ajudava, mas no final ele não fazia nada. Quem fazia os trabalhos dele era eu. Ele falava: ‘Pô peixe, segura aí, faz para mim’ (risos). Ele ia nas aulas quando dava, porque o Vasco viajava muitas vezes.”

Paulo César Gusmão, ex-goleiro e hoje técnico

“Na Europa não tinha nada disso, ele estava de saco cheio de concentrar. Depois que acabou a concentração, ele deslanchou na artilharia. Era um gol atrás do outro! Pode até ter sido uma coincidência, mas ele sempre brigava por isso (risos).”

Paulo César Gusmão, ex-goleiro e hoje técnico

“Quando vinha com a bola lá de trás, você poderia ter a melhor opção do mundo para tocar. Mesmo se o Romário tivesse marcado você tinha que dar a bola para ele (risos). Se alguém antecipasse ele, ainda caia na nossa conta (risos). Me falaram para mudar de jogada. Mas eu respondia: ‘eu estou subindo agora, se for fazer diferente e errar, ai que não jogo mais’.”

João Carlos, zagueiro que atuou com Romário no Vasco

 O Rei do noite 

“Uma vez eu estava em casa quase dormindo e o Romário estava dando uma festa na casa dele. Ele me ligou: ‘Cabeça, vem cá agora’. Eu pensei em falar ‘não’, mas ele emendou: ‘Não quer receber no final do mês?’. Eu tive que sair da cama, tomei banho e fui prestigiar a festa na cobertura dele na Barra. Ainda bem que estava solteiro na época. Ia tranquilo, senão não dava para sair. O que ia falar para minha esposa? Se bem que, pela moral que o Romário tinha, eu ia ter que que falar: ‘Amor, segura aí, que tenho que ir lá’. Tinha que garantir o nosso no final do mês, né? (risos).”

Morais, meia que atuou com Romário no Vasco

 O Rei da área 

“Dificilmente nascerá outro cara com tanta qualidade e tanta personalidade. O Romário falava o que pensava. Isso faz falta nos dias de hoje.”

Anselmo, que jogou com Romário no Vasco

“Ele acordava às vezes e falava: ‘Hoje vou fazer um gol assim’. Chegava no Maracanã e fazia. Era impressionante. Não esqueço, uma vez ele falou que ia dar um lençol no Zé Carlos e fazer um gol no Flamengo. Ele ainda tirava onda. ‘Aí, PC, não falei que ia fazer?’. Na comemoração do gol, ele correu para o banco de reservas gritando: ‘Falei para você, não falei?’. Isso era uma preparação mental que ele tinha. Não era um sonho, ele fixava naquilo que ele queria. Ia lá e resolvia. Era um cara predestinado.”

Paulo César Gusmão, ex-goleiro e hoje técnico

“Em 96, o Romário quis apostar comigo para ver quem seria o artilheiro do Carioca. Eu disse para ele: ‘Sem chance, Baixinho, não tem como competir entre a gente (risos)‘. Daí ele me disse: ‘Te dou 15 gols de vantagem’. Achei que dava, mas, enfim, não deu (risos). Não dava para competir.”

Sávio, atacante que jogou com Romário no Flamengo

“Eu aprendi demais com Romário. A cada dia era uma coisa nova. Ele podia chegar atrasado, mas depois do treino ficava com dois auxiliares cruzando bolas para ele completar de cabeça, de direita, de esquerda, de tudo que é jeito que você pode imaginar. Por isso que ele é o rei da grande e da pequena área. Ele ficava treinado finalização. Não foi um monstro à toa.”

João Carlos, zagueiro que atuou com Romário no Vasco

 Quem manda aqui mesmo? 

Campeonato Brasileiro de 1997.

Noite de sexta. Romário havia ido ao “Carnatal”, em Juiz de Fora, e curtido a banda “Chiclete com Banana”, que acabara de lançar o CD “Sou Chicleteiro”. Na manhã do sábado, se mandou para o Rio de Janeiro de helicóptero.

Sábado. A cena: Renato Gaúcho e Eurico Miranda sentados à mesa do almoço. O treinador bradou em alto e bom som: “Ele não vai jogar amanhã, nem sequer treinou! Como é que ele foi à micareta e não concentrou com o grupo, nem dormiu aqui? Isso é falta de respeito, não vai jogar!”. Eurico pedia calma. Nisso, chega Romário.

“Nós todos já tínhamos terminado o almoço, mas ficamos esperando para ver a cena. O ‘Baixinho’ chegou de bermuda e chinelo e sentou à mesa. O Renato olhou para o Romário e falou: ‘E aí, como está? Dá para jogar?’. Romário manda na lata: ‘Tá doido, pô? Se eu deixei a micareta e vim pra cá, é claro que eu quero jogar’. O Eurico deu a palavra final: ‘Então, você vai jogar’. E saiu da mesa.”

 A frase 

Após a vitória do Vasco sobre o Olaria por 4 a 1, em São Januário, pelo Campeonato Carioca de 2000, Romário rebateu uma declaração de Edmundo, que chamava o presidente vascaíno Eurico Miranda de rei e o camisa 11 de príncipe pelas regalias que ele tinha.

 Opinião e análise