Desconstruindo Ronaldo Fenômeno

Desconstruindo Ronaldo: como ele se tornou um Fenômeno na zoeira, na idolatria e na genialidade

01/05/2020

Il Fenomeno. Foi assim que a imprensa italiana começou a chamar Ronaldo, em 1997.

O apelido pegou, e o mundo passou a conhecê-lo assim. As arrancadas, os dribles, a alta velocidade, os gols, os dramas, o penta, mais lesões, mais voltas por cima. O termo “Fenômeno” acompanhou toda a carreira de Ronaldo.

Mas não foi apenas dentro de campo. Quem conviveu com a fera lembra que ele era artilheiro no papo, na resenha, tantao que ganhou outro apelido, Presidente. Além disso, são muitas as histórias engraçadíssimas de bastidores tendo o Fenômeno como protagonista… na zoeira. O lateral Cicinho, por exemplo, achou até que seria mandado embora do Real Madrid galáctico logo no primeiro treino após um “trote fenomenal” do amigo.   

Por tudo isso, Ronaldo, ops, Fenômeno virou referência no futebol mundial, moldou gerações de jogadores e faz, até hoje, craques virarem verdadeiras tietes quando estão perto dele.

Abaixo, a “desconstrução” de Ronaldo, o primeiro e único Fenômeno do futebol mundial:

 Tietagem fenomenal 

“Eu liguei para ele [Ronaldo] e disse: ‘Presidente, você está em Londres, vamos marcar um jantar por que os caras querem te conhecer. O Van Persie é muito seu fã e tem um quadro seu. O Podolski tem uma camisa sua e queria que você assinasse’. Eles ficaram alucinados. O Ronaldo ficou sentado ao meu lado e os caras ficaram olhando parados para ele, nem piscavam (risos). Pareciam hipnotizados. Foi incrível, um momento muito marcante. Consegui reunir vários craques em um jantar, e os caras estavam realizando o um sonho deles. Eu ia muito a esse restaurante, que fica no bairro onde morava a Amy Winehouse. Tinha espaço que ficava mais atrás das outras mesas e foi bacana. Batemos papo até altas horas e os caras ficaram malucos. Tiraram fotos pra caramba, levaram camisa para autografar. Eles ficaram um tempão falando só disso no Arsenal e me agradeceram demais.”

André Santos, lateral que jogou com Ronaldo no Corinthians

“O sucesso veio muito rápido. Em pouco tempo ele virou um popstar no Cruzeiro. O pessoal invadia para ver os treinos na Toca da Raposa logo que ele foi ao profissional. Antigamente era tudo aberto. Parecia o Michael Jackson, o pessoal ficava correndo atrás. Eram muitas fotos, autógrafos e marias-chuteiras atrás dele.”

Ricardinho, que jogou com Ronaldo no Cruzeiro

[Sobre a contratação de Ronaldo pelo Corinthians] “Não tinha esse negócio de redes sociais, subimos uma carta no site. Neto foi o primeiro a falar do acerto. Às 10h, demos a notícia de que o Ronaldo seria Corinthians. Ainda sem contrato assinado. Depois que anunciou, foi uma loucura. Um amigo me ligou chorando: ‘Jura que o Ronaldinho vai jogar no Corinthians?’. Foi muito louco. É muito maluco.”

Guilherme Prado, hoje assessor do Santos, mas na época profissional do Corinthians

“Eu dei logo de cara com Ronaldo e Roberto Carlos e o Edu Gaspar. Eu só via esses caras pelo videogame e pela televisão. A ficha demorou muito para cair. Foi (…) Ganhei duas camisas dele [Ronaldo]. Dei uma para o meu tio e outra para meu o irmão. Eu tenho guardada uma camisa autografada por todo grupo de jogadores de relíquia. Poucas pessoas vão viver o que eu vivi. Imagina quantos jogadores sonham em chegar a isso? Eu tive essa honra de jogar com os melhores jogadores Brasil e do mundo. Foi algo acima da média.”

Moacir, lateral que jogou com Ronaldo no Corinthians

 Fenômeno na zoeira 

[Às vésperas da final do Paulista, Ronaldo trancou Dentinho no chuveiro dentro do banheiro com uma algema. “Ele deixou o garoto mais de uma hora preso e me disse: ‘Dentinho vai correr mais do que o normal (risos)‘.”

“Subi na cadeira para fazer um discurso, mas me enrolei tanto que não deu certo (risos). O Ronaldo Fenômeno me colocou o apelido de Lázaro Ramos [ator] e já ficou aquela brincadeira toda. Ele é um cara humilde demais pelo que representa pra o mundo. Acho que isso é para poucos. Não é à toa que é chamado de Fenômeno, por que é um ser humano fenomenal.”

Moacir, lateral que jogou com Ronaldo no Corinthians

Logo ao chegar ao Real Madrid, Cicinho foi treinar com os reservas. Disputas acirradas entre titulares e suplentes, e Ronaldo ajudando o lateral na tradução. Em dado momento, o Fenômeno falou que era para pegar leve. Cicinho, então, o deixou passar, e ele fez o gol. Técnico e companheiros de time se revoltaram.

“Olhei e o Ronaldo estava morrendo de rir! O Roberto Carlos chegou em mim e perguntou: ‘Tá de brincadeira?’, e eu: ‘Não, Roberto! O Ronaldo traduziu e falou que era para eu só fazer a sombra, e eu acreditei’. O Roberto Carlos chegou no Ronaldo e pediu pra ele aliviar: ‘Pô, ‘Fenômeno’, o moleque acabou de chegar, pega leve!’. E, enquanto o Ronaldo ria, o Roberto explicou para todo mundo que ele tinha me zoado na tradução, aí ficou tudo certo (risos).”

 Malandragem fenomenal 

“Na final do Paulistão na Vila Belmiro, o jogo estava 0 a 0 e teve um escanteio para eles. Eu estava marcando o Fenômeno, e, pouco antes da cobrança, ele virou para mim e perguntou: ‘E aí, esse Neymar e esse Ganso têm futuro?’. Aí eu na ingenuidade comecei a responder: ‘Rapaz, você precisa vê-los nos treinos e…’, só que antes de eu terminar a frase olhei para o lado e o Ronaldo já estava uns sete metros longe de mim, totalmente desmarcado e esperando uma enfiada de bola (risos). Ele me chamou para fingir que queria falar de um assunto, mas o intuito dele era só me distrair e levar vantagem. No fundo, como grande jogador que sempre foi, era claro que ele sabia que Neymar e Ganso eram bons e tinham futuro. Só quis me enrolar mesmo (risos).”

“Para a minha sorte ele não fez gol nesse lance, mas olha a malandragem do cara! Era pura estratégia. Quando fui ver o posicionamento dele, o Fenômeno já tinha ido embora e estava pedindo a bola. Depois disso, eu redobrei a atenção para não vacilar mais. Infelizmente acabamos derrotados, e nessa partida ele desequilibrou, fez dois belos gols. Apesar dessa derrota, considero esse jogo como uma passagem bastante marcante para minha vida e carreira, aprendi bastante. Ainda troquei camisa com o Ronaldo no final e tenho ela guardada até hoje.”

Germano, ex-Santos, que enfrentou Ronaldo no Corinthians

“Nos treinos, ele apostava com os goleiros: quem pegasse um pênalti dele ganhava R$ 50. O cara era tão craque que só batia de esquerda e não errava.”

Octacílio Neto, meia que jogou com Ronaldo no Corinthians

 Ronaldo e um gol fenomenal 

12 de outubro de 1996, Compostela 1 x 5 Barcelona, estádio Multiusos de San Lázaro. 1º tempo, 36 minutos. Ronaldo rouba a bola no meio-campo. 14 toques na bola em 12 segundos, 6 faltas não marcadas. Chute rasteiro no canto direito do goleiro. Gol antológico.

“O treinador [Fernando Vázquez] era audacioso e disse: ‘Eu quero a defesa adiantada e nós vamos pressionar o Barcelona no campo deles. E vamos roubar a bola lá e ganhar deles’. O problema é que quando a bola chegava no Guardiola e no Stoichkov eram só toques de primeira. Não conseguíamos desarmá-los.”

“O Saïd Chiba, que era um marroquino do nosso time, tentou segurar o Ronaldo pela camisa. Ele pensou que ia levar um amarelo e alguém ia conseguir parar a jogada. Depois, ele me disse: ‘Ah, como tem oito jogadores lá atrás eu soltei. Esse foi meu erro’. Mas não foi assim que aconteceu (risos).”

“Eu fiquei preso entre a garagem e o primeiro andar. Como o estacionamento ficava um shopping, ninguém me escutava gritar. A minha sorte é que eu já tinha um celular naquela época, que estava com a bateria fraquíssima. Eu liguei para um amigo chamado Juan, que chamou o segurança que conseguiu abaixar o elevador e me tirar de lá.”

“Eu disse: ‘Toma a camisa que o Ronaldo [trocada após o gol antológico] me deu para você’. O garoto ficou todo feliz, mas a mãe dele ficou brava porque o Ronaldo limpou a sujeira do nariz nela. Ela queria lavá-la, mas o garoto ficou tão emocionado que só deixou para secar do suor e não quis lavar. Ou seja, tomei de cinco, fiquei preso no elevador e não fiquei com a camisa (risos).”

Fabiano Soares, que jogava no Compostela quando Ronaldo, no Barcelona, fez um gol antológico

 Baixinho Romário x Ronaldo Fenômeno 

“Tive dois companheiros no Compostela que atuaram tanto com Romário quanto com Ronaldo no PSV, da Holanda. Um dia, conversando sobre isso, eles disseram: ‘Fabiano, o Romário é Deus… Mas o Ronaldo é mais Deus ainda (risos).”

Fabiano Soares Pessoa, ex-jogador e hoje técnico, que fez curso da Uefa com Pep Guardiola na Europa

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