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Torcida do Manaus F.C. lota a Arena da Amazônia na final da Série D do Campeonato Brasileiro de 2019

Do renascimento com o futebol ao caos na saúde: o Manaus F.C. que poucos conhecem

15/05/2020

No meio de um exército vencido, os manauaras seguem resistindo entre mortos, feridos e sobreviventes da maior tragédia da saúde pública na história da capital amazonense. Logo agora, que a alegria do esporte havia ressurgido das cinzas depois de décadas de ostracismo e desmonte com o futebol local.

O Manaus F.C. era o alento de um povo que viu um gigante estádio construído apenas para a Copa do Mundo de 2014. Como a maioria dos elefantes brancos daquele vexatório mundial, a Arena Amazonas foi erguida para mostrar para o mundo um Brasil irreal.

Sorte da população que os deuses da bola e a cabeça pensante de dois dirigentes do futebol conseguiram, finalmente, depois de quatro anos, dar um rumo digno e adequado a um estádio moderníssimo. O gigante que custou muito dinheiro público, enfim, voltava a receber torcedores com o futebol.

Tudo começou, curiosamente, no ano da Copa, em 2014, quando os então dirigentes do Nacional de Manaus, Luis Mitoso e Giovanni Silva, resolveram entregar um projeto de inovação e reestruturação ao clube que, há anos, enfrentava dificuldades financeiras e estruturais.

À época, o presidente do Nacional não aceitou embarcar nos planos da dupla que, em seguida, resolveu sair do clube e montar o próprio time. Assim surgiu, em maio de 2014, o Manaus Futebol Clube, um time nanico que começaria do zero, mas sem dívidas e com muita ambição de se tornar o maior do Estado e, por que não, da região Norte do país.

Mitoso é advogado, tem 58 anos, já foi vereador de Manaus e hoje é suplente do senador Omar Aziz. Ele lembra o começo difícil da caminhada do time que hoje é tricampeão estadual no Amazonas. “Com a nossa saída do Nacional, levamos o nosso projeto para o time que resolvemos montar. No início, os amigos eram os ‘Paitrocinadores’, eles acreditavam mais no nome da gente do que no projeto em si. E assim formamos um clube que hoje conta com 70 colaboradores e uma estrutura profissional que há décadas não se via no futebol amazonense”, contou.

A ascensão foi meteórica, tanto que, a partir de 2017, o Manaus F.C, conquistou todos os Estaduais, um tricampeonato que não acontecia no Amazonas há 20 anos.

Mas o grande salto da equipe veio no ano passado, com a contratação do técnico mineiro Wellington Fajardo, 56 anos, que chegou em fevereiro de 2019 para colocar o clube-bebê em outro patamar. Acostumado a trabalhar com equipes modestas, mas competitivas, ele mudou-se para Manaus afim de colocar o time na história do futebol, não só regional como no âmbito nacional. E conseguiu. O professor de educação física que chegou a jogar no gol de América-MG e Cruzeiro embarcou para a capital do Amazonas com algumas armas na bagagem.

“Ir para o Manaus foi o grande desafio da minha vida profissional. Tive que reduzir muito o salário que ganhava nos clubes do Sudeste, mas coloquei metas para fazer o time ser grande. Primeiro, o Estadual do ano passado, depois a classificação para a Série C do Brasileirão. Para você ter uma ideia, quando cheguei lá, os jogadores não tinham uma preleção com vídeos, gráficos e análise de desempenho. Aos poucos fui colocando essas ferramentas para eles e todos absorveram muito bem, colocando em prática, e os resultados apareceram”, falou, entusiasmado, o técnico.

Welington é um técnico metódico, compromissado com muitos treinos táticos. Quem vê ele trabalhando garante que tudo que é exaustivamente treinado, como as jogadas de bola parada, dão certo nas partidas. Aliás, amigos e jogadores que já passaram pelas mãos do treinador mineiro garantem que, se ele fosse mais político e menos contestador, teria mais chances de estar em um clube da primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

“Já tive muitos problemas por causa de interferência de dirigentes no meu trabalho, inclusive, já foi demitido por não escalar um determinado jogador só por que ele tinha o salário mais alto e era o maior nome do clube. Eu não admito interferência na escalação. Se o cara me contrata para ser o treinador, sou eu que sei quem está bem, ou seja, em condições de jogar. É assim que eu ganho o respeito de todos os atletas em todos os elencos que treinei. Sou da turma da meritocracia: se está bem, joga. Disso, definitivamente, eu não abro mão”, ressaltou o treinador.

O presidente Mitoso concorda com o técnico, que tem alcançado grandes feitos, por exemplo, a inédita passagem da equipe da primeira fase da Copa do Brasil, vencendo o Coritiba, em casa.

“O Fajardo conta com a nossa confiança. É claro que a gente pergunta uma coisa aqui, outra ali, mas nunca interferimos na escalação. Quem conhece é ele, que tem o grupo nas mãos e está dando certo. Lógico que existe uma hierarquia, mas com muito respeito de ambas as partes”, disse o presidente.

O “professor” é tão maluco por tática, técnica e números que contratou, com dinheiro próprio, três profissionais de análise de desempenho. A equipe faz tudo de Juiz de Fora, onde vive sua família do treinador.

“Hoje não existe mais aquela história de não estudar o adversário. A minha equipe tem todos os jogos e os treinos dos adversários na internet e faz um relatório com os detalhes de cada jogador, de cada time adversário. Contra o Coritiba, que nos enfrentou em Manaus com o time completo, nós estudamos todos os detalhes e deu certo, vencemos por 1 a 0 e classificamos pela primeira vez o time para a segunda fase da Copa do Brasil”, contou, orgulhoso, o técnico.

Tudo vinha muito bem nesse ano de 2020, até a pandemia chegar e praticamente devastar o sistema de saúde da capital amazonense e as finanças do Manaus F.C., que vinham muito bem.

Com orçamento limitadíssimo perto de outros grandes e médios do futebol brasileiro, o clube tem realizado verdadeiros milagres nesses seis anos de vida.

Em 2019, bateu recorde atrás de recorde nos jogos pela Série D do Brasileiro. No jogo do acesso contra o Caxias, o time levou mais de 40 mil torcedores para a Arena Amazonas. Já contra o Brusque alcançou recorde de público com 44. 896 torcedores que, em um passe de mágica, tornaram-se fãs incondicionais da nova sensação do futebol manauara.

“O amazonense estava precisando de um time para chamar de seu. Eu e o Giovanni começamos com essa história, mas o time não é mais nosso, é do povo de Manaus. A gente ficou grande demais. Estamos precisando de mais gente para fazer parte da diretoria, da administração. Estamos precisando, claro, de mais patrocinadores, até por que, com a pandemia, alguns cortaram drasticamente os investimentos. Nosso orçamento para esse ano [2020] dobrou com relação ao ano passado. Hoje, para disputar a Série C, é de R$ 330 a R$ 350 mil ao mês [em 2019, girava em torno de R# 170 mil]. Com a paralisação das competições por causa da COVID-19, tivemos uma drástica queda de recursos. Tivemos que cortar 50% dos salários de todos os colaboradores, desde o atleta, comissão técnica, até o porteiro do clube. A CBF nos ajudou, nesse primeiro momento, com R$ 200 mil. Uma força para a gente se manter durante abril e maio, já a partir de junho, se as coisas não melhorarem, não sabemos ao certo o que iremos fazer, já que a nossa folha de pagamento vinha dependendo bastante das bilheterias, dos jogos que vinham lotando a Arena”, disse Mitoso.

Da euforia ao caos em um piscar de olhos

Dispensados para ficar em casa desde o dia 17 de março, jogadores e comissão técnica tentam manter a forma. Acompanham as dicas de preparação física pela internet e não veem a hora de voltarem ao clube, mas só quem permaneceu em Manaus tem a exata noção da grave crise que cidade e Estado estão passando.

Do Manaus F.C., só o médico da equipe, Lucas Mitoso, filho do presidente, testou positivo para a COVID-19. Até agora, entre elenco e demais funcionários, ninguém foi infectado.

Luis Mitoso conta que, no início, ele e a esposa ficaram desesperados com a notícia de que o filho médico estava com a doença. Afirmou que ele ficou isolado em um quarto da casa por 14 dias e que agora já está de volta na linha de frente da saúde pública de Manaus.

“A coisa aqui está complicada. Eu mesmo perdi dois amigos, pastores evangélicos da minha igreja, por causa da COVID. Minha esposa perdeu um primo. Hoje, agora falando com você, fiquei sabendo que um amigo e outra amiga, também advogados, faleceram por causa dessa doença. É muito triste”, disse.

O massagista Graciliano Villaça, funcionário do clube desde a fundação, segue a mesma linha de raciocínio do chefe presidente. “Estávamos vivendo um sonho, uma realização profissional sem tamanho para todos nós. De repente, a pandemia trouxe o terror para a nossa cidade. No meu caso, perdi muitos amigos para a doença. Perdi dois vizinhos, um de cada lado da minha casa. Perdemos também um amigo de profissão, o massagista Osmar, do Fast Clube. Está sendo um período muito triste que estamos vivendo por aqui, tem muita gente morrendo.”

O massagista disse que está cumprindo com todas as recomendações do clube e das autoridades de saúde. Recentemente, ele passou por uma cirurgia no coração e faz parte do grupo de risco em caso de infecção.

Graciliano sabe que a doença é séria e não quer fazer parte da horrorosa estatística que até agora já levou mais de 1.100 conterrâneos [segundo dados do Ministério da Saúde em 14 de maio].

“Há dois meses, meu sentimento era de muita alegria. Hoje, é de extrema tristeza e preocupação com as vidas que estão se perdendo, com as histórias que estão sendo enterradas. Para você ter uma ideia, no meio daquela multidão de torcedores que estavam apoiando o Manaus nas finais da Série D do Brasileirão e da Copa do Brasil, estava o Condera, torcedor símbolo do clube. Hoje, faz 25 dias que esse cara, que tanto levava alegria e força ao nosso time, morreu por causa do COVID-19”, lamentou Graciliano.

Um sopro de alegria

Enquanto o futebol com a ascensão meteórica do Manaus F.C. não volta, a cidade conhecida como “Paris dos Trópicos”, apelido dado à época em que a capital amazonense viveu uma intensa modernização durante o ciclo da borracha, segue chorando as vidas que se vão.

Antes da pandemia, a capital do Amazonas tinha uma média de 30 mortes por dia. Agora, durante o surto da COVID-19, as mortes diárias já chegaram a 160. Sinais dos tempos de desdém com a saúde pública, de desleixo com vidas, com a história de um povo cordial, trabalhador e generoso, que não quer nada mais do que um retorno à uma vida com trabalho, educação, esporte com o sucesso do Manaus F.C. e com a música brega e alegre, cantada por um dos ícones da cantoria na capital.

Um sopro de alegria, como o de Nunes Filho, é o que todos querem de volta.

Futebol em Seca

Nas várias viagens que a ESPN fez à capital amazonense, uma foi especial. Futebol em Seca é um retrato da falência do esporte manauara nos anos de 2010. Um raio-X do esporte que agonizava como hoje sofre a sistema público de saúde do Amazonas.

Entrevistas com ícones do futebol do Norte do Brasil, como o técnico Aderbal Lana e com “Seo” Amadeu que, depois de seu falecimento, teve o América de Manaus, clube de tradição, ter as suas portas praticamente fechadas. O futebol das crianças na seca do Rio Amazonas e a constatação de uma suposta compra de votos com políticos locais distribuindo cestas básicas em troca. É o coração da Amazônia, rico em todos os aspectos, que parece ter evoluído pouco se comparado a nossa reportagem de 10 anos atrás.